terça-feira, 14 de agosto de 2018

Os Perigos do Doping


Baseado em diversos artigos encontrados na internet.

O doping (ou dopagem) não é mais que um termo inglês que designa o uso de drogas ou substâncias que aumentam as capacidades físicas de atletas desportivos. O doping pode também ser considerado como o uso de certas técnicas ou métodos que alteram o estado físico do desportista para aumentar o seu rendimento desportivo (não devemos, no entanto confundir doping com treino físico rigoroso). Também é considerado doping o uso de substâncias que disfarçam outras substâncias dopantes, como é o caso dos diuréticos.
Existem também métodos de administrar substâncias e de manipular o perfil fisiológico que são proibidos. Estes métodos podem causar danos ao organismo. Por exemplo: Doping sanguíneo, incluindo transfusão de sangue visando alterar o fluxo de oxigênio no organismo pode resultar num elevado risco de ter uma parada cardíaca, infarto, problemas renais e elevada pressão sanguínea, pode acarretar problemas com o sangue, tal como: infecções, intoxicações, excesso de glóbulos vermelhos, redução do número de plaquetas e causar problemas com o sistema circulatório.
Tal como qualquer droga injetável, o uso de seringas para a dopagem aumenta bastante o risco de contrair doenças infecciosas como Aids e hepatites.
É obrigação de cada atleta conhecer a lista de substâncias e métodos proibidos, quando um atleta é descoberto no teste antidoping não é admissível as afirmações: “eu não sabia”, “culpa do remédio”, “o médico indicou” e por ai vai, na tentativa de minimizar a penalidade.

Este assunto e a lista podem ser consultados em qualquer destes sites:
Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem – ABCD
US Anti-Doping Agency – USADA
Autoridade Antidopagem de Portugal - ADoP

Grande parte dos medicamentos que constam da lista de substâncias proibidas podem ser adquiridas nas farmácias, e não é seguro usá-los. Os medicamentos são para pessoas com problemas específicos de saúde e não para atletas saudáveis. Não foram feitos para serem usados por pessoas jovens e saudáveis em doses elevadas e em combinação com outras substâncias. Todo os medicamentos têm efeitos colaterais entretanto, tomá-los sem necessidade pode provocar sérios danos ao organismo e destruir a sua carreira atlética.

Muito cuidado com os suplementos alimentares, as indústrias de suplementos não são devidamente controladas, isso significa que nunca se sabe ao certo o que se está tomando, pode haver substância proibida em qualquer suplemento que se diz natural. DICA: se lhe parecer demasiado bom - é provável que seja proibido!

As drogas e substâncias dopantes encontradas podem ser divididas em vários grupos e classes:

Esteróides Anabolizantes - são as drogas mais utilizadas no desporto de alta competição, especialmente nos desportos que necessitam grande força física e consequentemente, grande força muscular, possuem basicamente duas funções no organismo: a função androgênica e a função anabolizante. A função androgênica dos esteróides é responsável pelo desenvolvimento dos caracteres sexuais masculinos, nomeadamente o crescimento da barba, pêlos púbicos, engrossamento da voz, desenvolvimento do pênis e testículos, enfim, responsável pelas características denominadas masculinas. Depois, temos a outra função dos esteróides, a função anabólica: esta é responsável pelo desenvolvimento da massa muscular e massa óssea. Este é o efeito mais procurado pelos atletas, o efeito anabolizante, e é por isso que se tentam criar esteróides que maximizam o efeito anabólico, mas que reduzem o efeito androgênico, pois desta maneira as células dos músculos serão as principais receptores dos esteróides, não sendo estes “desperdiçados” com outros órgãos que tenham receptores para o efeito androgênico do esteróide (maximizando assim o seu efeito de aumento muscular).
Os esteróides anabolizantes são altamente proibidos na maior parte do desporto, pois dão uma vantagem, muitas vezes decisiva, aos atletas que utilizam este tipo de doping, contrariando a igualdade desportiva e a própria máxima do Barão de Courbertin (principal responsável pelos jogos olímpicos da era moderna), que dizia que o importante no desporto é a competição e não a procura desenfreada por resultados. Este tipo de drogas pode ser tomado oralmente ou através de injeções, sendo geralmente injetados em vez de consumidos oralmente. Quando tomados oralmente, os esteróides passam pelo fígado, no qual sofre um processo de Alcalinilização, processo esse extremamente prejudicial ao fígado.
Os esteroides podem tornar os teus músculos mais volumosos e proporcionarem mais força, mas... podem te tornar dependente deles e originar acne, fazer cair o cabelo, aumentar o risco de contrair doenças de fígado e cardiovasculares, originar mudanças de humor, tornar mais agressivo, originar tendências suicidas.
Nos rapazes, pode provocar: encolhimento dos testículos, desenvolvimento de seios e redução da potência sexual e até mesmo causar impotência.
Nas moças, pode provocar: Voz grossa, pelos excessivos na face e no corpo, ciclos menstruais anormais e aumento do volume do clitóris.

Estimulantes - são substâncias que estimulam e aceleram a atividade cerebral, o que faz com que a resposta nervosa seja mais rápida, aumento a atividade dos atletas e diminuindo o seu cansaço. O uso de estimulantes é muito frequente entre os atletas (é o mais frequente depois do consumo de esteróides) que tomam drogas como anfetaminas, estricnina, cafeína ou até mesmo cocaína, para reduzirem o cansaço e aumentarem a sua resposta cerebral. Os estimulantes podem ser tomados por via oral, em pó, através da inspiração nasal, injeções e podem mesmo ser fumados.
Este tipo de drogas é proibido numa grande variedade de esportes e atualmente pensa-se que já existe consumo de estimulantes nervosos em esportes como o xadrez, que requer uma grande atividade cerebral durante torneios de vários dias. Estas drogas são proibidas, pois dão uma vantagem injusta aqueles que as usam (pois o sistema nervoso está muito mais ativo) e, além disso, podem também ter outras consequências para a saúde, pois estes aumentam a pressão arterial, podem fazer com que o atleta emagreça, o uso contínuo pode destruir células nervosas (a hiperatividade contínua provoca a sua destruição), pode provocar insônias, euforia, alterações de comportamento, tremores, respiração acelerada, confusão cerebral, ritmo cardíaco acelerado e irregular. Possibilidade de sofrer uma parada cardíaca ou derrame cerebral e overdoses quando tomados em excesso.

Analgésicos, calmantes e narcóticos (metadona, petidina, heroína, morfina e a cocaína, entre outros) - frequentemente usados em quase todos os esportes fisicamente exigentes e que podem ter como efeito, reduzir a dor de certas lesões ou atividades, fazendo com que o atleta aguente mais tempo e aguente mais dor, aumentando a sua resistência natural, sendo por isso muito utilizado em esportes como a maratona e o triatlo (fisicamente muito exigentes).
Este grupo (analgésicos, calmantes e narcóticos) apresentam perigos para o organismo, pois o seu uso visando reduzir a dor pode fazer com que um atleta agrave uma lesão, podem levar também à fragilização do sistema imunológico, redução do ritmo cardíaco, perda de equilíbrio e coordenação, problemas gastrointestinais (náuseas, vômitos e constipação), insônias e depressão, diminuição da frequência cardíaca e ritmo respiratório e diminuição da capacidade de concentração, além de que Os narcóticos são também altamente viciantes – O organismo e memória facilmente se tornam dependente deles.
Estão ainda proibidas nas competições todo o tipo de narcóticos estupefacientes e ainda drogas antiestrogênicas, drogas que se destinam a inibir a produção destes hormônios.
A maconha (canabis, marijuana, seja qual for a designação), haxixe e similares, estão banidas. Quer seja um viciado ou utilizador casual, essas drogas podem ter efeitos negativos no rendimento como atleta e na saúde, o seu uso pode reduzir a capacidade da memória, atenção e motivação, e até mesmo causar dificuldades de aprendizagem, fragilizar o sistema imunológico, Afetar os pulmões (bronquite crônica) e outras doenças respiratórias e até, mesmo, câncer de garganta.

Beta-bloqueadores (acebutolol, alprenolol, atenolol, labetolol, metipranolol, pindolol, etc.) - são utilizados no esporte de uma forma semelhante ao analgésico, pois também ajudam a combater o nervosismo, stress e ansiedade. Estas drogas atuam nomeadamente no coração, diminuindo o ritmo cardíaco.
Esta função é altamente proveitosa para certos esportes de alta precisão, sendo por isso proibida em esportes como o tiro ao alvo, tiro com arco, bilhar, xadrez, natação sincronizada. O consumo é perigoso, pois a diminuição do ritmo cardíaco pode provar hipotensão (tensão arterial baixa) e pode mesmo provocar paradas cardíacas. Pode também provocar asma, hipoglicemia (falta de glicose no sangue), insônias e impotência sexual.

Hormônios peptídicos - possuem diversas funções. Uma das suas principais funções é a fixação peptídica, isto é, estes hormônios ajudam os músculos nas suas reações anabólicas, ajudando a fixar os aminoácidos necessários para a construção destes. Existem vários tipos de hormônios peptídicos, e com diversas funções, de entre as quais se destacam:
a) O Eritropoietina, também denominada de EPO. Este hormônio, que existe no nosso organismo, estimula a produção de glóbulos vermelhos, aumentando assim a resistência do atleta (pois os músculos são fornecidos com uma maior quantidade de oxigênio). O uso de EPO pode tornar o teu sangue mais denso ao invés de mais líquido. A tentativa de bombear este sangue viscoso através das veias pode fazer se sentir fraco, o que não é bom se estiver treinando intensamente e elevar a pressão arterial.
b) O HCG, um hormônio produzida pelo feto durante a gravidez, é também usada pelos homens para aumentar a produção de esteróides no organismo. Existem também mulheres que engravidam, pois o HCG faz aumentar as concentrações de hormônios femininos e com tais concentrações ditas “naturais” muitas outras drogas dopantes que podem existir em certas concentrações são disfarçadas. Depois do teste de controle, as atletas abortam.
c) O HC, hormônio do crescimento, tal como o nome indica é produzido em grande quantidade durante a puberdade e permite o crescimento dos indivíduos, é também usado na construção e recuperação de tecidos musculares. O HGH pode tornar os músculos mais fortes e fazer você se recuperar rapidamente, mas... Não são apenas os seus músculos que crescem, o uso de HGH pode provocar acromegalia (saliência da testa, sobrancelhas, crânio e maxilar – um efeito que não pode ser revertido), aumento do tamanho do coração resultando na elevação da pressão arterial e até mesmo numa parada cardíaca, danos no fígado, na tiroide e ao nível da visão e ainda provoca artrites.
d) O LH, hormônio que existe naturalmente no nosso organismo, é usado para estimular a produção de testosterona nos testículos.
O uso destas drogas pode provocar deformações ósseas, distúrbios hormonais, miopia, hipertensão, coágulos sanguíneos, diabetes, doenças articulares.
A utilização de hormônios não peptídicos está também proibida quando apresentam estrutura e função semelhante aos peptídicos.

Agentes Mascarantes ou Diuréticos - Este tipo de substâncias tem como função aumentar a quantidade de urina produzida para camuflar os sinais de substâncias proibidas, o que leva a alterações no controle, já que a maior parte das substâncias são consideradas ilegais quando detectada em concentrações elevadas. Ao aumentar a quantidade de urina, as concentrações de substâncias dopantes vão diminuir, não podendo por isso serem consideradas dopantes abaixo de certos níveis. Além desta função, os diuréticos são também usados para perda de peso, nomeadamente em esportes divididos por categorias de peso ou até mesmo de forma a que certas substâncias (nomeadamente dopantes) sejam expulsas rapidamente do organismo. Os principais diuréticos usados são o triantereno e a furosemida. Como efeitos secundários prejudiciais, os diuréticos podem causar tonturas ou mesmo desmaios, perda da coordenação, equilíbrio desorientação, mudança de humor, desidratação, câimbras (cãibras), doenças renais, perda de sais minerais, alterações no volume do sangue e no ritmo cardíaco. Se os problemas cardíacos e renais tornarem-se muito graves. Os efeitos colaterais podem afetar definitivamente a habilidade de treinamento e competitiva e podem mesmo levar à morte do atleta.
Beta-agonistas - são drogas que se destinam a aumentar a massa muscular e diminuir a massa gorda. Uma droga beta-agonista muito conhecida é a adrenalina, que existe naturalmente no nosso organismo e que é libertada quando estamos sujeitos a situações de grande tensão (é por isso que, quando ameaçados ou em perigo, o homem consegue faz certas proezas ou utilizar certa força que normalmente não conseguiria usar). Este grupo de drogas é conhecido pela sua capacidade de controlar a distribuição de fibras musculares e de aumentar o ritmo cardíaco, aumentando o fluxo de sangue para músculos e cérebro. Como efeito secundário prejudiciais tem o aparecimento de insônias, agressividade, tremores e náuseas, falta de concentração, distúrbios psíquicos, aumento da pressão arterial, problemas cardiovasculares.

Antes de experimentar e usar, pare para pensar e lembre-se! Você é o único responsável por suas escolhas.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Judô - Benefício Para Epilépticos


Baseado nos artigos: Judô e epilepsia - Douglas Vieira (1) e Epilepsia e decisão Medico-desportiva - Drs. Jorge Ruivo e Anabela Valadas (2)

O judô é um esporte tradicional, popular e praticado por indivíduos de diferentes raças, origens, faixas etárias e classes sociais que teve sua origem quando o Professor Jigoro Kano procurou sistematizar as técnicas de uma arte marcial japonesa, conhecida como Jujitsu, fundamentando sua prática em princípios filosóficos bem definidos, a fim de torná-la um meio eficaz para o aprimoramento do físico, do intelecto e do caráter, num processo de aperfeiçoamento do ser humano.

Jigoro Kano transformou a arte marcial do antigo Jujitsu no Judô, em que através do treinamento dos métodos de ataque e defesa pode-se adquirir qualidades mais favoráveis à vida do homem sob três aspectos: condicionamento físico, espírito de luta e atitude moral autêntica.

Além disso, uma questão de extrema importância também foi criteriosamente estudada e desenvolvida por Jigoro Kano. Quando na preparação para o lançamento do seu estilo de luta, o Professor Kano deu especial atenção para a integridade física do atleta. Dentro de seu ideal de luta esportiva, Kano procurou eliminar as técnicas perigosas e na impossibilidade de eliminar as quedas, consequência natural dos golpes de arremesso, aperfeiçoou técnicas que praticamente anulam as possibilidades de acidentes. A prática do ukemi (quedas ou formas de cair ou de ser projetado) proporciona aos judocas um excelente senso de equilíbrio e proteção, mesmo para uma queda fora do tatame que, por pior que seja, terá seus efeitos diminuídos ou anulados.

Até o momento, nenhum estudo na literatura abordou com exatidão a relação entre epilepsia e a prática de judô.

O termo epilepsia refere-se a um distúrbio da atividade cerebral caracterizada pela ocorrência periódica e espontânea de crises epilépticas, decorrentes da descarga excessiva e sincronizada da rede neuronal, acompanhada de manifestações comportamentais. Essas crises podem surgir espontaneamente ou ser desencadeadas por situações como: febre, distúrbio eletrolítico, intoxicação, doenças degenerativas e alterações vasculares. A epilepsia não é, portanto, uma doença específica ou uma única síndrome, ela representa um grupo complexo de distúrbios decorrentes de funções cerebrais alteradas que podem ser secundárias a um grande número de processos patológicos.

Apesar da crescente promoção do exercício físico e do esporte num contexto terapêutico, a sua adoção a nível de subpopulações clínicas é heterogênea. São poucos os doentes epilépticos que incorporam exercícios físicos na sua rotina diária, apesar dos seus benefícios. Muitas vezes tal fato deve-se a restrição (indevida) médica ou dos pais, o que condiciona uma menor aptidão física por parte destes indivíduos. Durante muitos anos houve a tendência para desencorajar os epilépticos da prática de exercícios físicos por receio que este pudesse exacerbar a doença. Atualmente existem estudos que demonstram que o indivíduo epiléptico, com um bom controle das crises, pode participar em esportes sem aumentar a frequência ou gravidade das crises epilépticas, ou mesmo se beneficiar de um melhor controle da sua doença. O resumo da evidência científica que se faz em seguida pretende contribuir para o passo mais importante: a individualização da decisão médico-desportiva após análise dos riscos/benefícios A maior parte dos estudos apontam para a diminuição de crises com a prática regular de exercícios físicos conferindo um efeito protetor aos pacientes com epilepsia. No primeiro estudo no qual avaliaram o efeito de um programa de atividade física com uma duração de 12 semanas em 14 pacientes com epilepsia foi verificado que o exercício moderado influenciou positivamente o comportamento dos pacientes e não apresentou impacto sobre a frequência de crises dos mesmos, sugerindo que a prática de atividade física deve ser incentivada para os indivíduos com epilepsia. Em outro estudo, o grupo de pesquisa do autor (1) avaliou os hábitos esportivos de 100 pacientes com epilepsia e constatou que, apesar dos indivíduos com epilepsia não praticarem atividade física regularmente, a grande maioria acredita que a atividade física influencia positivamente o tratamento da epilepsia. Além disso, salientamos que entre as modalidades esportivas praticadas com maior frequência pelos indivíduos com epilepsia destaca-se o futebol, a natação, a ginástica, o vôlei e a bicicleta. Dessa forma, acreditamos que os pacientes com epilepsia (com controle total de crises, com ou sem o uso de medicação antiepiléptica) devem ser encorajados pelos seus médicos neurologistas à prática do judô, pois além de poderem apresentar uma significativa melhora cognitiva, a prática deste esporte também poderá auxiliar favoravelmente o controle desta síndrome neurológica.

Apesar do efeito favorável da atividade física sobre a saúde ser inquestionável, programas de exercício físico para indivíduos com epilepsia é ainda assunto de controvérsia. Uma atitude superprotetora em relação às pessoas com epilepsia normalmente evita sua participação em atividades esportivas. Esta relutância dos indivíduos com epilepsia e de seus familiares é devida, em parte, pelo medo de que o exercício poderá causar crises ou pelo receio de ocorrência de lesões durante o exercício. Dessa forma, a principal preocupação das pessoas com epilepsia em relação ao exercício físico resume-se na possibilidade deste atuar como fator indutor de crises ou aumentar a frequência das mesmas após o início de um programa de treinamento físico. As crises podem ocorrer durante o exercício, no entanto, com uma frequência bastante reduzida ou em casos específicos. Nesse sentido, indivíduos com epilepsia podem ter os mesmos benefícios de um programa de treinamento físico que qualquer outra pessoa: aumento da capacidade aeróbia máxima, aumento da capacidade de trabalho, frequência cardíaca reduzida para um mesmo nível de esforço, redução de peso com redução de gordura corporal e aumento da autoestima.

A maioria dos esportes são seguros para os epilépticos. As atividades aeróbias, como corrida, ciclismo, basquetebol, podem ser recomendadas sem restrições. Os esportes de contato, como por exemplo o boxe não induzem crises e a sua participação não deve ser restringida. Curiosamente, relatos recentes indicam que a participação em artes marciais como o judô podem inclusive ser benéficas para o controle da doença Pelo fato de se encontrar um efeito positivo nos estudos experimentais e clínicos que avaliaram o efeito do exercício físico nas epilepsias, a atividade física em geral não deve ser considerada um fator indutor de crises epilépticas. Além da discussão sobre a influência da atividade física na frequência de crises, conhecendo que a atividade física proporciona efeitos benéficos tanto físicos quanto psicológicos em pessoas com epilepsia, parece justificável encorajar as pessoas com epilepsia a participarem de um programa de exercício físico regular, dentre os quais o judô se inclui. Obviamente que uma série de estudos ainda deve ser realizado com o intuito de esclarecer com maior exatidão a relação entre atividade física e epilepsia. No entanto, o médico neurologista deve sempre oferecer ao paciente as possibilidades existentes de tratamento e informá-los de uma forma precisa, coerente e baseada na literatura médica atualizada sobre a possibilidade ou não da prática de atividade física. Finalmente, com relação ao judô, a decisão final deverá ocorrer após um consenso entre as partes envolvidas, isto é, o médico, o sensei (professor de judô), o paciente e seus familiares.

(1) Douglas Vieira, vice-campeão olímpico em Los Angeles 1984 e técnico da seleção Sub 20 feminina, obteve um 2009 o título de mestre com a tese "Conhecimento sobre epilepsia entre estudantes de educação física na cidade de São Paulo. O programa de mestrado foi feito em Neurologia/Neurociências da Universidade Federação de São Paulo, Escola Paulista de Medicina, com a orientação do Professor Doutor Ricardo Mario Arida e coorientado pelo Professor Doutor Fulvio Alexandre Scorza.
(2) Departamento de medicina desportiva, Clinica das Conchas, Serviço de Medicina, Centro Hospitalar Lisboa Norte, Serviço de Neurologia, Hospital de São Bernardo, Setubal, Portugal.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Massao Shinohara



Condecorado com a Ordem do Sol Nascente e promovido a 10º Dan de Judô

O mestre Massao Shinohara, judoca de 92 anos, filho de imigrantes japoneses criado em Embu das Artes, São Paulo, começou a praticar judô em 1940, aos 15 anos. Sua forma de lutar chamou a atenção de Ryuzo Ogawa, um dos grandes mestres de judô do Brasil, com quem passou a treinar em São Paulo até se tornar professor.

Em 1956, fundou a Associação de Judô Vila Sônia numa garagem alugada e conciliava as aulas com o trabalho de transportador de legumes. Com a ajuda do amigo Jorge Tatsumi e dos pais de seus alunos, angariou recursos para comprar um terreno maior e construiu sozinho o que é hoje o atual dojô da Associação de Judô Vila Sônia, fundado em 1986.

Massao, um dos maiores senseis formadores de faixas pretas de judô no Brasil e mentor de grandes nomes do judô nacional como Aurélio Miguel, Luis Onmura, Carlos Honorato, Cristhiane Parmigiano, entre outros, formou grandes faixas pretas brasileiros, entre eles seu próprio filho, Luiz Shinohara, técnico da seleção masculina do Brasil desde 2002.

Foi técnico da seleção brasileira de judô nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984, onde Douglas Vieira conquistou a prata, além de Luiz Onmura e Walter Carmona que conquistaram o bronze. Em sua trajetória como professor.

Massao Shinohara foi homenageado pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo no dia 14 de novembro deste ano, recebendo a “Ordem do Sol Nascente – Raios de Prata”, a segunda maior honraria outorgada pelo governo japonês. Estabelecida em 1875 pelo Imperador Meiji, a condecoração é, tradicionalmente, entregue em nome do Imperador àqueles que prestaram longos e meritórios serviços ao país, sendo destinada a civis, militares, japoneses e estrangeiros.

O senhor Massao Shinohara, como professor de judô, atuou durante longos anos na difusão do judô e na capacitação de sucessores, formando muitos medalhistas e contribuindo grandiosamente para o fortalecimento do Judô no Brasil. O fato do Brasil ser hoje conhecido no Judô seguramente se deve aos esforços do senhor Shinohara", destacou o cônsul-geral do Japão, Takahiro Nakamae. 

O mestre do judô nacional, entrou para a história do esporte brasileiro na noite do dia 17 de novembro último ao receber a faixa vermelha 10º Dan, em cerimônia realizada na sua Associação de Judô Vila Sônia, em São Paulo. O 10º Dan é o grau mais alto que um judoca pode alcançar e Massao é o primeiro do Brasil a ostentar esse título. Em clima de harmonia e festa, o acolhedor dojô da Vila Sônia recebeu familiares, amigos, alunos, ex-alunos, professores kodanshas, medalhistas olímpicos, como Aurélio Miguel, Rogério Sampaio, Carlos Honorato, Luiz Onmura, Henrique Guimarães, Rafael Silva “Baby”, Leandro Guilheiro e autoridades, como o presidente da CBJ, Silvio Acácio Borges, e o presidente da Federação Paulista de Judô, Alessandro Puglia, responsáveis por entregar o diploma e a faixa ao sensei Massao.

“É preciso sempre reverenciar Massao Shinohara por sua conduta e pelo que ele representa para o judô brasileiro. Sua história está escrita em cada um de seus alunos, de seus amigos e de sua família. Só me resta agradecer por poder participar desse grande momento do judô nacional, realizando a merecida outorga de 10º Dan ao sensei Massao Shinohara”, pontuou Silvio Acácio.

“Foi um trabalho árduo em busca desse reconhecimento ao sensei Massao Shinohara, que formou diversos atletas aqui neste dojô e transformou o judô de São Paulo. É um momento histórico para um mestre incontestável”, afirmou Puglia.

O primeiro campeão olímpico do judô brasileiro e aluno forjado pelo rigor e técnica de Shinohara, Aurélio Miguel foi o responsável por falar em nome de todos os alunos e pelo kampai, o brinde em homenagem ao mestre.

“Nós, alunos do sensei Massao, tivemos a oportunidade de aprender judô aqui na Vila Sônia. Sensei Massao sempre nos ensinou com muita disciplina e buscava sempre resgatar o verdadeiro judô. É um exemplo, uma inspiração para todos nós. O judô brasileiro está em festa”, resumiu o campeão.

Foto: Everton Monteiro/Boletim Osotogari

sábado, 21 de outubro de 2017

Sensei e Shiran



SENSEI
Não há termo mais utilizado e, possivelmente, menos entendido do que o termo japonês Sensei.

A sua utilização indiscriminada com infinitos significados no meio das Artes Marciais ensinadas no ocidente, confere-lhe um status místico-transcendente, elevando o seu "usuário" a um patamar acima dos demais mortais, sem que, de fato, seja real merecedor.

A palavra Sensei, quando escrita em japonês, é composta por duas ideias distintas:
SEN (Saki) - "antes, à frente, precedente, prévio, etc."
SEI (Umareru) - "viver, nascer"

Conclui-se que Sensei literalmente significa "Aquele que nasceu/viveu antes (de mim)" e, consequentemente, implica "ser mais velho", "ter mais experiência".
Contudo, a condição de "ser mais velho" em determinada área de atividade pode ser atingida por meio de educação, conhecimento efetivo sobre determinada matéria, profissão e também por idade, no Japão é extremamente comum referirmo-nos às pessoas mais velhas, devido ao respeito que temos por elas, pela designação Sensei. Neste mesmo contexto, dentro da sociedade japonesa, certas pessoas com status social definido como médicos, advogados, professores, etc. frequentemente são chamados de Sensei, praticamente da mesma forma como são usadas as expressões: "doutor", "engenheiro" e assim por diante.

Isso leva-nos à questão da palavra Sensei utilizada dentro das Artes Marciais praticadas nos dias de hoje. Em primeiro lugar, e que isso fique bem claro, ter uma faixa preta, não faz de ninguém um Sensei, e, por isso, é errado e completamente fora de contexto obrigar os alunos a tratarem os faixas pretas por esta denominação.

Vejamos um exemplo prático: uma pessoa, com uma certa idade, com família para sustentar e que é 2º ou 1º Kyû, ser obrigado a tratar um faixa preta, mais jovem que ele, pela denominação Sensei. É ir muito além do que este termo representa e é uma falha grosseira de etiqueta tradicional japonesa (onde os mais jovens devem respeitar aos mais velhos).

Assim, quem seria um Sensei dentro das Artes Marciais ensinadas no ocidente?
A denominação Sensei é, em grande parte, uma medida de comparação entre indivíduos que possuem uma arte em comum e, neste aspecto, define o respeito que ambas têm entre si. O grau de conhecimento da cultura japonesa determina a utilização do termo dentro do círculo restrito de conhecimentos interno (independentemente das faixas ou graduações que possuam).

Isto já não é válido para elementos de Artes Marciais diferentes, onde não se pode determinar com precisão o conhecimentos dos outros indivíduos ou sermos capazes de dizer definitivamente se este ou aquele nasceu antes de uma outra pessoa. Assim sendo, o termo Sensei não pode ser usado neste contexto sob pena de cair no erro de "subestimar" ou "superestimar" o conhecimento real de determinado indivíduo que provém de fora do círculo de conhecimento interpessoal.

Contudo, uma vez que as Artes Marciais Japonesas são um guia de comportamento baseado nos ensinamentos de condutas marciais Japonesas, onde a humildade, simplicidade, retidão e o "não apego ao ego" são fatores determinantes, vê-se a cada dia que passa um crescente número de indivíduos que se apresentam como "Sensei, tal Dan de tal Arte". Tal comportamento apenas demonstra a falta de conhecimento por parte destas pessoas no que diz respeito ao significado real desta palavra e vai diretamente contra os ensinamentos básicos de humildade e simplicidade ensinados em qualquer Arte Marcial Japonesa, pois o esforço deve ser feito na compreensão da Arte, seja ela qual for, e não no acúmulo de títulos, por pura vaidade.

Desta forma, um melhor entendimento do termo em questão, uma melhor compreensão de condutas culturais estabelecidas pela prática das Artes Marciais e uma maior reflexão sobre o verdadeiro significado da palavra "humildade" talvez mudassem este panorama caótico do uso da palavra Sensei.

SHIHAN
Esta palavra também é composta por duas duas ideias:
SHI - "professor, mestre ou pessoa de caráter exemplar"
HAN - "bom exemplo".

Assim, usado de modo tradicional, Shihan é um termo de tratamento dirigido a pessoas a quem se vê como um exemplo a ser seguido.

Atualmente tende-se a pensar que a função de um professor é comunicar informações a seus alunos, porém, o uso tradicional do termo shihan está ligado a um modelo mais antigo de instrução. Nesse modelo, as pessoas que querem aprender uma atividade ou arte ligam-se a um mestre, a que devem observar e imitar. Desse modo, recebem ensinamentos gerais sobre como conduzir suas vidas bem como ensinamentos mais específicos relacionados à técnica de sua arte. Há (diz-se às vezes) uma "transmissão de coração para coração" da arte do mestre ao aluno – uma transmissão que não pode ser realizada a menos que este esteja em contato direto com o mestre.

Empregado para significar mestre, o termo Shihan é simplesmente uma forma respeitosa de tratamento. Em geral, seria endereçado apenas àqueles com grande conhecimento, habilidade, experiência, e habilidade para ensinar – e ainda somente se tivessem vivido vidas exemplares. Ainda assim seria um erro exigir uma definição precisa desse termo de tratamento, assim como seria um absurdo perguntar quantos anos um ceramista teria de exercer a prática de sua profissão antes de poder ser chamado de mestre ceramista.

Shihan é um título normalmente usado em artes marciais. Cada arte ou organização tem requerimentos diferentes para o uso deste título, mas em geral é uma graduação muito alta, que leva décadas para ser atingida. É às vezes associado a certos direitos, como por exemplo o de outorgar graduações DAN em nome da organização.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Senpai e Kõhai



A sociedade japonesa é um tipo de sociedade muito marcada pela hierarquia, Senpai e Kõhai são termos usados na cultura japonesa e são formas de tratamento baseadas no status decidido com base na idade, importância, cargo ou tempo ao qual o indivíduo pertence a uma organização. No Japão se pode encontrar este sistema em praticamente qualquer nível da sociedade, desde a educação, passando pelo trabalho e pelas artes marciais, sobretudo. Senpai é aproximadamente equivalente ao conceito ocidental de “veterano” enquanto kõhai não possui uma tradução certa, mas de um modo geral tem um significado equivalente a “calouro”, embora não implique uma relação tão forte quanto significa no Ocidente.

O sistema Senpai e Kõhai é simples. Entre duas pessoas que habitualmente passam muito tempo juntas num mesmo local, naturalmente uma delas é o mentor (Senpai) e a outra o aprendiz (Kõhai). Na maioria das vezes o Senpai é a pessoa de maior idade e o Kõhai o mais jovem. De forma simples, Senpai é utilizado para se referir a uma pessoa mais velha e experiente, um mentor ou sênior. Já kouhai é uma pessoa mais nova, novata ou inexperiente. Ninguém se sente ofendido ao ser chamado de Kouhai, ao contrario, existe uma grande relação entre os 2.

O Senpai tem a função de passar a experiência que ganhou por estar mais tempo neste local, advertir e aconselhar para que o Kõhai possa progredir mais e melhor. Por outro lado o Kõhai deve guardar respeito a seu Senpai e acatar aquilo que ele lhe disser ou aconselhar.

Senpai não é a pessoa que ensina, doutrina ou que guia os Kõhais, pois este é o papel de um Sensei. A obrigação de Senpai é muito difícil, pois além de coordenar tarefas mais complexas e com mais responsabilidades do que as do kõhai, deve ser um exemplo em todos os aspectos possíveis, para mostrar aos Kõhais qual a postura que deve ser adotada. O Senpai deve possuir habilidades técnicas e de postura que inspirem seus Kõhais a fazer o mesmo.
O Senpai é um estudante sênior (designado pelo Sensei) que se torna responsável por um ou mais Kohâis (estudantes) para ensinar-lhes as informações básicas sobre o Ryû ou escola. Frequentemente esta relação é conhecida como "irmão mais velho / irmão mais novo" dentro do Japão tradicional e deveria ser feito de idêntica maneira dentro das escolas de Artes Marciais.

Num clube de desporto ou artes marciais japonesas, como numa academia de Judô ou uma equipe de baseball, é esperado do Kōhai a execução de tarefas simples para o clube como lavar roupas e limpar equipamentos. Mais do que uma simples divisão de respeito, esta relação estabelece obrigações mútuas. Do Kōhai espera-se o respeito ao seu Senpai, enquanto do Senpai espera-se que este seja um exemplo para o Kōhai.

Há algum tempo, um judoca perguntou como é o tratamento quando ocorre deles serem de mesmo nível, idade e estar pelo mesmo tempo no mesmo lugar, neste caso, os japoneses se chamam por seu nome ou utilizam outros sufixos mais próprios do idioma e não do sistema Senpai e Kõhai (como por exemplo: -Chan, -Kun, -San, etc.) Em outros casos tendem a adicionar no final do nome o sufixo Senpai. Por outro lado, um Senpai se dirige a seu Kõhai por seu nome sem utilizar nenhum tipo de sufixo.

Normalmente não há separação certa de idade entre um kōhai e um Senpai. Mas alunos mais velhos que os do primeiro ano também usam este termo. Esta hierarquia pode continuar depois de saírem da escola, empresa ou organização. Isto é válido particularmente quando haja eventos para reuni-los, tais como a ida para outra escola, empresa, equipe ou simplesmente em momentos de lazer. Em ocasiões mais raras, uma pessoa mais jovem também pode ser considerada Senpai de uma pessoa mais velha, caso a pessoa mais velha tenha entrado depois do mais novo em qualquer organização.

Nas artes marciais japonesas, o termo Senpai geralmente se refere a alunos de um nível mais elevado. Eles são escolhidos para ajudar o sensei com os alunos mais jovens ou menos experientes. A figura do Senpai não é formalizada, ou seja, não é algo obrigatório em dojos. Existem dojos que têm essa figura e outros que não. O Senpai é uma espécie de monitor da turma e deve ser respeitado porque tem a confiança do Sensei, conduz a saudação dos alunos no início e no final das aulas, conduz as aulas quando o Sensei não está presente, faz cumprir as regras do dojo. O Senpai é o elo de ligação entre os alunos e o Sensei, pegando as perguntas, dúvidas, solicitações, reclamações ou observações transmitindo-as para o Sensei. Ser Senpai é uma honra e um privilégio, mas também é uma responsabilidade e um compromisso que nem todos estão preparados para carregar nos seus ombros.

Por esta abordagem, o sistema Senpai e Kõhai parece ser boa ideia, um sistema muito bom. O problema é que, como na maioria das ideias utópicas, muitas vezes o significado original é distorcido. Já foi visto o sistema Senpai e Kõhai bem aplicado, mas na maioria das vezes não é tão bem aplicado, especialmente em escolas, faculdades e universidades, onde normalmente começa a aplicação deste sistema, os Senpais querem tirar proveito de sua condição e muitas vezes maltratam seus Kõhais, se esquecendo daquela parte que diz: proteger e ser exemplo.

Geralmente, se um Kõhai não foi bem tratado pelo seu Senpai, tentará dar o mesmo tratamento quando ele próprio for um Senpai. Ao se tornarem veteranos ao invés se sentirem orgulhosos e fazerem seu máximo para ajudar os novatos que chegarem, passam a achar que podem dar o mesmo tratamento que receberam, fazendo com que a história se repita várias vezes, jogando por terra a aplicação do sistema.

sábado, 9 de setembro de 2017

Judô: O tatami - Agora é mole... Mas já foi dureza



Normalmente em português escrevemos e falamos tatame, mas a escrita e a pronúncia correta é tatami. Este termo deriva do verbo tatamu, que significa dobrar ou empilhar, muito provavelmente porque no início, os tatames eram um piso que caso não estivesse em uso poderia ser dobrado ou empilhado. O tatame (esteira) é um elemento chave da decoração nipônica. Faz parte da milenar cultura japonesa o ato de sentar e/ou deitar diretamente no chão em cima de esteiras. No início a palavra tatami era designada para descrever os objetos dobráveis ou os usados para aumentar a espessura para as pessoas poderem se acomodar em cima.

Sua origem remonta a era primitiva quando os japoneses tinham o hábito de trançar vegetais nativos. Os camponeses costumavam usar muitos trançados feitos com palha de arroz, pois era um material abundante nos campos de cultivo. Os trançados feitos com um junco chamado igusa, uma planta usada na confecção de têxteis no Japão há pelo menos dois mil anos, que por ter uma superfície lisa, resistência, flexibilidade e comprimento ganharam destaque na sociedade antiga e passaram a ser utilizados nas cerimonias religiosas e por nobres, inclusive eles começaram a ser chamados de goza, lugar de sentar, sendo destinados para os deuses e cerimonias antigas.

Foi a partir do período Heian (794-1192), que o tatami começou a tomar a forma conhecida nos dias de hoje. Naquela época as casa dos nobres tinham muitos aposentos e os tatamis (feitos de palhas de arroz firmemente atadas e cobertas com uma fina esteira de igusa) eram colocados sobre o assoalho de madeira nos locais onde eram necessários assentos. Eles ainda não eram utilizados para forrar todo o piso.
Mas só a partir do período Muromachi (1336–1573) os tatamis que originalmente eram um item de luxo exclusivo da nobreza, gradualmente tornaram-se acessíveis e comuns em todas as casas, principalmente também pela popularização da Cerimônia do Chá.

Um tatami tradicional japonês é feito basicamente de três componentes:
Tatami-omote – é o tecido da superfície, capa tecida de Igusa (Juncus Effusus) que é uma planta aquática que cresce melhor na parte sul do Japão,
    
Tatami-doko – é o núcleo, base feita comumente de palha de arroz compactada, pois esta oferece um perfeito grau de firmeza e também é muito durável,
Tatami-beri - é a borda decorativa de acabamento feita de seda, linho ou algodão e que corre ao longo da parte mais comprida. Além de dar o toque de requinte à peça, serve para prender o núcleo à superfície de esteira. No passado, o design multicolorido e atraente expressava o status social de uma família ou a posição social de um individuo na sociedade.
Na época em que Jigoro Kano treinava, os tatamis eram exatamente assim. Hoje em dia, um tatame desses custa uma pequena fortuna por aqui no Brasil, tornando absurdamente custoso manter um dojô de um tamanho razoável. Além da difícil manutenção, tem também o fato de que a palha da esteira dava algumas queimaduras se friccionada contra a pele. Ralar a cara na palha lutando não devia ser um negócio legal.

Aqui no Brasil, quem é mais antigo no judô, deve se lembrar de tatamis confeccionados também com núcleo de palha de arroz, mas recobertos com tecido (lona), no lugar da esteira de igusa. mas segundo os mais experientes, os tatames oficiais eram assim por aqui desde a década de 60.

Os tatamis oficiais de hoje são fabricados na medida de 2x1m com espessura de 40 mm de espuma de alta densidade, constituída de grânulos de poliuretano de 8mm aglutinados com adesivo especial com resistência a compressão de 600 a 400kg/cm², recobertos com uma lona de vinil com textura efeito palha natural com tecido de reforço de poliéster, especial para a pratica desportiva. que imita a textura do igusa no tatami tradicional. Algo parecido com isto, numa visão recortada:
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Já nos dojôs locais, era comum até não muito tempo atrás, o tatame todo ser uma grande área cujo núcleo era feito com raspas de pneu e coberto com uma lona. Ainda existem muitos dojôs de raspa de pneu com certeza.

Atualmente a grande utilização é o tatami fabricado com EVA, (é a sigla de acetato-vinilo de etileno que deriva do inglês: Ethylene Vinyl Acetate ou etileno acetato de vinila). Essa espuma sintética é produzida a partir de seu copolímero termoplástico. O baixo custo de produção deste material o torna muito útil para diversas aplicações, inclusive para a fabricação de tatamis, é uma resina termoplástica derivada do petróleo especialmente desenvolvida para absorção de impactos com ótima memória de retorno, atóxico, resistente a água, revestido com película siliconada antiderrapante, garantindo maior segurança e facilidade na limpeza.

Os tatamis de EVA. são fabricado em placas de 1x1m e 2x1m e apesar de serem apresentados em espessuras de 10mm a 40mm, os recomendados para prática de judô têm no mínimo 30mm de espessura para melhor absorção de impacto e costumam já ter os encaixes tipo “quebra-cabeças” pra facilitar a montagem e ficar com mais firmeza. Embora este material seja relativamente barato e prático, infelizmente não possui uma vida útil muito longa se não for muito bem cuidado. Se for montado e desmontado em todo treino com certeza não vai durar muito. A reclamação de quem utiliza os tatamis de EVA. é que não possuem uma rigidez adequada para que as quedas do judô sejam executadas da melhor forma. Eles têm muito rebote, isto é, você “quica” muito quando cai. Outra coisa que incomoda, é que eles também não oferecem um deslize fluido para o tsuri ashi, o passo arrastado do judoca.

Se você pratica katás num tatami desses, deve saber do que está sendo comentado aqui, mas apesar de tudo, se tem uma coisa que se possa falar com toda convicção sobre qualquer tipo de tatami é que, sem eles, praticar judô seria no mínimo, muito mais doloroso!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Judô: A Faixa feminina


O comitê executivo da Federação Japonesa de Judô anunciou nesta data, 13 de março de 2017, nova regulamentação e aboliu a faixa preta feminina com uma listra branca usada em competições internas na terra do judô para diferenciar homens e mulheres no tatame. A partir de agora, tanto homens, quanto mulheres usarão a faixa preta normal, sem listra, nos torneios domésticos, como já acontece nas competições da Federação Internacional de Judô.

A prática de diferenciação de gênero pelo uniforme vem há muito tempo sendo criticada como uma medida sexista. A própria Federação Internacional de Judô aboliu a faixa listrada em 1999 em competições internacionais.

Antigamente as faixas femininas possuíam uma tira branca no meio da faixa no sentido longitudinal para diferençá-las das faixas masculinas, não se sabe ao certo qual a utilidade desse método, mas em algumas escolas japonesas, ainda hoje, se vê essa tradição.

    
Pesquisando um pouco sobre isso, encontrei um pouco sobre o assunto no capítulo II do livro “Mulheres no Tatame: O judô feminino no Brasil”, escrito por Gabriela Conceição de Souza e Ludmila Mourão, o qual reproduzo abaixo:

...Jigoro Kano respeitava os limites e os valores de sua cultura, que pregava ideias como: “As mulheres não são feitas para lutar, e sim, para procriar”; esta ideia também existia no Ocidente. Entretanto, Kano, como educador, questionava esses valores e se interessava em desenvolver uma arte que não tivesse cunho violento e, portanto, não pudesse pôr em risco as condições físicas das mulheres, caso essa fragilidade realmente existisse, ou sobrecarregar seus corpos. Além disso, acreditava que a suavidade e a delicadeza que a cultura feminina trazia para as lutas configuravam-se como características importantes para aquilo que considerava o ideal do espirito judoístico. Partindo desse principio, Kano dá início às aulas de judô para mulheres em sua própria casa (Sugai e Tsujimoto, 2000). Por outro lado, as diferentes características do treinamento feminino e do masculino eram representadas inclusive na vestimenta própria do judô. O quimono utilizado para a prática da luta era o mesmo para ambos os sexos. Entretanto, ao longo da faixa feminina, longitudinalmente, deveria haver uma lista branca, que não existia nas faixas masculinas (Kano, 1994)...

... A primeira aluna do mestre Jigoro Kano foi Sueko Ashiya, em 1893, mas também participavam das aulas a esposa de Kano, Sumako, e algumas amigas (Sugai e Tsujimoto, 2000)...

...Somente em 1926, Jigoro Kano criou uma equipe só de mulheres na escola Koubun Gakuin, em Tóquio – a JoshiBu -, e a primeira mulher faixa preta foi Kozaki Kanoko, em 1933, cuja faixa apresentava a listra branca no meio para diferençá-la das faixas masculinas...

No Brasil não há notícia do uso da listra branca na faixa de judô, se houve já caiu em desuso há muito tempo.


Vamos falar mais um pouquinho sobre faixa de judô:

Por que não se lava a faixa do judô? Essa pergunta quando feita traz respostas das mais variadas, como pelo fato dela desbotar, superstição, etc.

Desbotar é sempre possível, dependendo da qualidade da faixa e a forma de lavagem e em termos de superstição, não se pode lavar porque a faixa demonstra todo seu conhecimento e lavando ele vai embora junto com a água (depois de mais velhos nós sabemos que isso não existe, mas para as crianças funciona bem).

Entretanto, a origem desta tradição tem uma explicação até lógica. Durante muito tempo, no Japão só existiam duas cores de faixa: branca ou preta. No intervalo entre uma e outra não havia como fazer a distinção entre alunos mais graduados e menos graduados. Ou melhor, havia, o judô nessa época era praticado no chão duro, muitas vezes na terra, sendo que, quanto mais suja a faixa, significava que o aluno treinava há mais tempo. Lavar a faixa então representaria um retrocesso.

O aluno só passava da faixa branca quando esta literalmente estava marrom de sujeira, a faixa marrom então significava que o aluno já treinou tanto, que ela ficou daquela cor.

Com o passar do tempo, foi introduzida então mais uma cor de faixa e a escolha da cor é óbvia: a marrom. Até hoje no Japão só existem essas três cores de faixa: a faixa branca japonesa que corresponde até aos quatro primeiros graus brasileiros (branco, azul, amarelo e laranja), a faixa marrom que corresponde aos nossos três graus seguintes (verde, roxo e marrom) e a preta que corresponde igualmente à nossa preta.

A origem das faixas coloridas, bem como, o significado das cores particulares, ainda é encoberta de mistérios, e pode permanecer perdida na história. Embora não tenha deixado nenhuma razão registrada para as várias cores usadas, o Dr. Kano deixou alguns indícios. De acordo com sua doutrina filosófica, não há limites para as melhorias e para o progresso que se pode ter no seu treinamento de judô. Assim, o Dr. Kano acreditou que se alguém conseguisse um estágio mais elevado do que o décimo dan, retornaria consequentemente à faixa branca, terminando desse modo o círculo completo do judô, como o ciclo da vida.

No caso desta eventualidade, deve-se salientar que o Kodokan decidiu que a faixa usada por tal pessoa deveria ser aproximadamente duas vezes mais larga que a faixa comum, para impedir que os novatos confundissem o significado. Até agora, o Dr. Kano é a única pessoa com a graduação de décimo segundo dan e com o título de Shihan.

Eventualmente, a habilidade ou o nível do judoca vieram a ser denotados pelas faixas coloridas usadas em torno da cintura com o judogi. No Japão, as faixas brancas são geralmente usadas por todas as graduações de kyu, embora algumas escolas usem também a faixa marrom para indicar os níveis mais elevados do kyu. As faixas azul, amarela, alaranjada, verde, e roxa, usadas pelos níveis intermediários do kyu tiveram origem na Europa e foram importadas para o sistema dos Estados Unidos durante o início dos anos 50.

As faixas pretas são tradicionalmente usadas pelos praticantes competitivamente graduados, primeiro dan (shodan) até o quinto dan (godan). Uma faixa vermelha e branca é usada pelos níveis merecidos pelo serviço prestado ao judo, sexto dan (rokudan) até o oitavo dan (hachidan), e as faixas inteiramente vermelhas são reservadas para o nono dan (kudan) e o décimo dan (judan).